A tal da culpa depois dos 40

Mais uma semana começa. Pegamos a agenda para listar as atividades do dia, como se não soubéssemos de có, mas a sensação de colocar um ✅ ao lado da tarefa realizada dá aquele sentimento de poder, de controle. Você se sente a dona do mundo, como a menina dos dragões.


Então, prosseguimos com a lista de tarefas, tentando colocar uma ordem por prioridade, mas tudo é importante. Então esquece a ordem. Fez sua lista? Como ficou? A minha, entre trabalhar, cuidar da casa, do gato, fazer compras, academia e responder msg do crush no app de namoro, enxugando, deu 17 itens. 


E então quando chega na quinta-feira, você chega no trabalho com a cara parecendo que foi engolida pela Anaconda. O transporte público está em greve. A cidade está um caos. Sua menstruação desceu uma semana antes. Você não recebeu o pagamento pelo trabalho extra que fez no fim de semana e soube que vai atrasar. Ô ódio!


Sua mente está exausta. Seu humor está pior que o de Daenerys louca. Mas a sua lista de tarefas grita que você só foi pra academia uma vez essa semana. Sua preguiçosa! Grita que você tem aula daquela profissão que você disse que é o propósito de você estar no mundo, mas você não quer ir hoje. Procrastinadora!





É engraçado como a gente atribui um propósito relevante a todas as tarefas que nos propomos a fazer. Tudo é importante. E de tão importante, nos tornamos quase escravos delas. E deixar de cumprir uma delas se torna quase um pecado capital. Como você não foi pra academia hoje?


Como você não brinca com seu gato ao acordar? 


Como você não comeu salada no almoço, com, no mínimo 3 cores diferentes? 


É tanto padrão, tanta regra, que quando resolvemos dizer não a alguma coisa importante, do tipo, "não vou estudar hoje, não vou pra academia. Vou comer batata frita, biscoito recheado, beber cerveja, deitar na rede e escutar as melhores de Michael Jackson…” Quando isso acontece, se acontece, você mesma se culpa, acha que está procrastinando.


Nós mulheres lutamos durante muito tempo por liberdade. Liberdade para sermos o que quisermos ser, longe dos padrões patriarcais. 

Mas será que não estamos nos escravizando a novos padrões que tiram nossa liberdade de dizer sim para nós mesmas?


E então você vai responder a mensagem no app 3 dias depois que o boy mandou… já se passaram 3 dias? Parece que só tem 3 horas… e aí tem outra mensagem dele assim: “Não responde? Não quer conversar? Só sabe colocar foto bonita e depois reclama que está sozinha.”


Além de escravas das tarefas, estão querendo nos tornar escravas do tempo do outro também.


Comentários